quinta-feira, 4 de março de 2010

Sobre a fé



Lembro dos tempos de catequese. Domingo de manhã. Uma infinidade de textos metafóricos explicados literalmente e um sem-número de regras, de “podes” e “não podes”. Decorar os mandamentos e os sacramentos para a chamada oral. Competição para o maior número de nomes de Nossa Senhora.
Como mais de 70% da população brasileira, nasci em berço católico. Batismo, primeira-comunhão e crisma. Com a descrição do parágrafo anterior, até não seria de se surpreender que a Igreja Romana perca 10% de seus fiéis (?) ao ano. Minha razão foi outra. Eu até achava a decoreba divertida.
Cansei de ambigüidades, de falta de lógica, acima de tudo. Não conseguia conceber um ser que é Perdão e Amor condenando algumas de suas crias à danação eterna. Meio do mal isso. Fui procurar outras respostas.
Achei que meu raciocínio lógico e minha necessidade de racionalizar tudo me levariam ao ateísmo. Não mesmo. Eu acho o ateísmo um saco. Pior que isso, só o ceticismo científico. É muita falta de tesão na vida ser cético. Você já viu algum cético sorrir, a não ser com ironia e com aquele ar de superioridade de “olha eles achando que sabem alguma coisa”?
Pô, legal por em dúvida e questionar as coisas. Não fosse por isso, eu também não teria movido adiante (espero). Mas creio que a doação à crença sem questionamento às vezes é tão deliciosamente necessária... Acho esse o grande papel da religião hoje em dia; depois de pastores estelionatários e padres pedófilos, o que nos resta é o misticismo. O grande mistério da fé.
E vai além da religião. Você gosta de acreditar que o déjà vu seja resultado de uma confusão neurológica que armazena o fato que se lhe apresenta na memória tardia ao invés da memória recente? Ou prefere achar que um dom inato de premonição nos dá lampejos de cenas futuras? Ou até que foi uma falha na Matrix? Não importa quão razoável a explicação científica seja, é muito mais saboroso crer no inexplicável. Precisamos disso.
Pra mim, a fé tem um papel de confortar. Não de conformar. Acho o cúmulo o “moro num barraco e estou na merda, mas não posso fazer nada porque é o meu destino”. Isso é conformismo demais. Por outro lado, crer no famoso “nada é por acaso” ajuda a passar por momentos ruins, tirando o maior proveito disso possível e tendo energia para seguir em frente. Sem questionar, sem buscar explicações “preto-no-branco”.
Eu, da minha parte, estou bem com minha consciência escolhendo crer cegamente em algumas coisas e duvidando de outras quando julgo que devo. E sigo buscando conforto no invisível. Como todos, no fundo. Afinal, como dizem por aí, “na UTI, você não encontra nenhum ateu”.

(Ilustração: "Prayer", Cezar Capacle)

4 comentários:

Skr disse...

Coolio... Keep on writing (on a free world)

Andre Pacheco disse...

Vc n tem botão de seguidores... q faço eu?
esse post tá bacana mas põe mais coisa aew mané!!!!

Abraço

Marcos "Móx" Rios disse...

linda a ilustração...

hee... brincadeira, não só a arte, mas teu texto fala muito aos meus ouvidos, se é que entendes !!!

Grande Cezinha, até breve, qualquer hora ligo pra você.

Anônimo disse...

muito bom texto, ótimo mesmo, mas, afinal de contas, você continua católico?

O maior problema não é nem quando a pessoa crê, o problema é quando ela põe aquilo como certo, do fanatismo vem os males.

Abraços